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Itamaury Teles – Mornas águas do Mosquito

8 agosto 2014 907 views 0 Comentários

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Mornas águas do Mosquito

Há um rio que passou em minha vida e que ainda povoa minhas ternas recordações infanto-juvenis. Não é um rio caudaloso, nem importante geograficamente. Em alguns mapas, nem sequer aparece. Mas continua a correr morno e silencioso nos corações saudosos de porteirinhenses ausentes.

Graças ao Rio Mosquito, manso e raso, aprendi a nadar sozinho. Sem professores nem boias. No máximo, sob as vistas de um irmão mais velho. E olhe lá…

Gratas recordações esse rio me traz. Dos seus inúmeros poços, cada um com suas nuances e características próprias: a “cachoeirinha”, com seu barranco de tauá e remanso ensombrado por grandes jatobazeiros; o “rego do Véi Olímpio”, pequeno canion de tauá firme, por onde o rio se espremia e nós por ali escorregávamos e caíamos num grande poço; a “barragem”, represa construída pela municipalidade, para servir de balneário público, situada logo abaixo ao açude da Copasa, onde toda a cidade se refugiava – e refugia – nas tardes quentes de verão; o “criminosinho”, esculpido em pedras irregulares, na curva do rio, repleto de locas e esconderijo de enormes traíras; o “criminosão”, localizado próximo ao encontro com o rio Sítio Novo, bem abaixo da cidade. Estes últimos eram poços perigosos e tinham esses nomes em virtude de afogamentos fatais em suas águas.

A “cachoeirinha” era o nosso poço predileto. Na realidade um pequeno desnível de meio metro, onde o rio murmurejava. Ali, a nossa primeira providência, antes de banharmos pelados, era atravessar o rio, “nadando em pé”, com as roupas na cabeça, para deixá-las no barranco oposto. Isso porque era muito comum meninos aparecerem sorrateiramente para dar nós nas roupas esquecidas no barranco da “margem de cá”. Como o poço era profundo, subíamos nos pés de jatobá e pulávamos de uma altura considerável, às vezes dando dois saltos mortais no ar.

Quando chovia na cabeceira e o rio enchia, subíamos um pouco mais alto nos jatobazeiros, olhávamos para ver se não havia troncos descendo na correnteza e saltávamos despreocupados, sempre gritando “aipiôôôô….” até nos esborracharmos n’água. Era assim a tarde inteira. Os olhos ficavam vermelhos, as pontas dos dedos se enrugavam e o frio apertava, quando saíamos da água, deixando-nos de lábios arroxeados. Mas era bom…

Nas férias escolares, ficávamos no rio durante todo o dia. Comíamos por lá mesmo, pois havia muita fruta nos arrabaldes: jatobás, bacuparis, pitombas, jenipapos e mangas. Em época de melancia, era comum levarmos uma para deixar submersa, na areia fria, e degustá-la, fresquinha, após o jogo de futebol no areão, em campinho que o saudoso amigo Jadir batizou de “Beira-Rio”.

Nos últimos anos, venho acalentando a ideia de andar novamente pelas margens do Rio Mosquito, para rever os locais que marcaram a minha infância. Amigos, que compartilharam comigo desses bons momentos, acham que devo poupar meu coração dessas tristezas que o progresso traz: muitos dos poços foram desfigurados pela ganância dos areeiros ou pelo crescimento da zona urbana…

Mais saiba, velho Mosquito, que mesmo tendo conhecido o Sena, em Paris; o Reno, que corta a Alemanha; o Tâmisa, em Londres; o Danúbio, em Viena; o Tejo e d’Ouro, em Portugal, ainda guardo na mente as boas recordações de infância, e você continua imbatível. Mesmo não sendo o maior, você é e continuará sendo o mais lembrando. E isso é o que importa…

*Itamaury Teles é escritor e jornalista

 

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