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Itamaury Teles – Saudade de não sei o quê

28 fevereiro 2013 1.044 views 0 Comentários

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Saudade de não sei o quê

Volta e meia, ouço um som distante e dolente, que me remonta a um passado longínquo, a uma época que não sei bem qual, a um lugar indefinido, enfim.

Trata-se de algo de  difícil explicação.  É o mesmo som que ouvia quando dormitava às dez da noite em Porteirinha, ouvindo ao longe o som do “motor da luz”. Não era bem o som do motor, mas outro, agudíssimo, ondulante, proveniente, creio, do funcionamento em potência máxima do conjunto diesel que iluminava a cidade. Era um som adjacente, como se algo vibrasse em decorrência dele, várias oitavas acima, e que fosse perceptível apenas por ouvidos mais atentos.

Ouvia esse mesmo som em Montes Claros, no início da década de 70. Este provinha dos motores de locomotivas utilizados pela empresa de eletricidade para suplementar a iluminação da cidade.  Enquanto tentava dormir, na casa da minha irmã, ali na Rua Rui Barbosa, também percebia aquela sensação auditiva especialíssima.

Em minha oficina de trabalho, em Belo Horizonte, na Rua Timbiras com Rio de Janeiro, também passei a escutar tal som distante, principalmente quando de lá saio depois das oito da noite, e a poluição sonora dos automóveis já não nos importuna mais com o “vruuuum” constante e alucinante. Enquanto espero o elevador, costumo ouvi-lo ao longe, o que provoca em mim uma saudade imensa, pungente e lancinante…

Pode-se comparar tal situação àquela sentida pelo esquisito ser extraterrestre, do filme “E.T.”, de Steven Spielberg, quando, olhando triste pro céu, quase morrendo, balbuciou duas palavras que refletiam aquele seu estado de espírito: “missing home”… saudade de casa.

Mas de que casa sinto saudade, se desde tenra idade essa sensação me acompanha? Quando esse som diferente insiste em penetrar meus ouvidos, sinto uma saudade enorme, uma tristeza profunda. É a mesma tristeza em mim produzida por um remoto e quase inaudível dobrar de sinos, plangente e cadenciado, que ecoa pelos vales afora, evocando reflexão sobre a nossa pequenez e submissão a forças superiores e desconhecidas, mas que se  mantêm conectadas conosco, mandando, em situações especiais, mensagens para nós difíceis de serem decodificadas, embora percebidas.

Será que essas lembranças, de não sei bem o quê, não se prestariam a manter acesa em nós a certeza da efemeridade da vida terrena, ou, em outras palavras, que estamos aqui de passagem? Pode ser, como pode não ser, ou “to be or not to be, that´s the question…”, já dizia Shakespeare, como a demonstrar que não é, embora pareça ser….ou vice-versa do avesso, do avesso, do avesso.

Essa nossa vida parece ter mesmo seus mistérios insondáveis. Por mais que filosofemos, por mais que busquemos os porquês para justificar a origem da vida, a razão da nossa existência terrena e o que nos acontecerá depois, sempre encontramos lacunas ainda não preenchidas pelo pensamento humano, e nem sequer contempladas pelos dogmas eclesiásticos – que limitam a nossa reflexão, ao condicionar aceitação passiva a seus ditames, como se assim fosse melhor.

A sensação percebida, em relação ao som distante, é que apagaram de alguma forma nossas lembranças, mas mantiveram nossos sentimentos de saudade de não sei o quê, fazendo gemer uma inquietude mórbida, dessas de doer as entranhas.

Interessante é que andei indagando pessoas sobre se também sentiam essa saudade estranha e, por incrível que pareça, mais de 80% dos pesquisados responderam afirmativamente.

Enquanto isso, não tenham dúvidas, vou continuar buscando significado para esse som, que teima em revolver supostas lembranças ancestrais. Ah, isso vou…

*Itamaury Teles é escritor e jornalista

 

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